19 de junho de 2011

São Paulo Fashion Week

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Aterrorizante, não?

Da janela do meu quarto eu tenho uma vista muito interessante. Moro num bairro com diversos planaltos, então, mesmo morando em casa, por ficar na parte de cima de um dos morros, eu consigo ver precisamente um vale de casas antigas convivendo com uma meia dúzia de edifícios relativamente novos. De cá, consigo ver um deles que tem uns 20 e tantos andares. Fico imaginando a vista que deve ter no topo.

Invejinha de quem mora lá.

Foi nesse processo quase metafisico de dissecar minha inveja que eu pensei no São Paulo Fashion Week. Mas eu sinto que não estou contando a história toda a vocês, meus irmãozinhos.

Aconteceu assim...

Era uma sexta-feira e, nesse dia, minhas duas ultimas aulas no colégio são de química. E a matéria do terceiro colegial de química pode até ser tranquila, mas tem muita gente se ferrando na minha sala. Até ai, normal.

A parte bizarra começa quando percebo um individuo guardando o caderno na mala e se aprontando pra sair. Primeiramente eu pensei que ele fosse sair mais cedo pra prestar algum vestibular de inverno.

Engano meu. Ele foi pro titulo deste post. E ele não é exatamente o que podemos chamar de gênio escolar.

Foi o suficiente para que minha cabeça começasse a pensar tanto nisso que eu me irritei numa proporção meio fora do que deveria. Eu costumo fazer isso.

Nesses casos (recorrentes) minha namorada querida me faz esquecer a falta de lógica de certos eventos e me desvia o pensamento do fato de que eu simplesmente não posso fazer nada se um babaca prefere ver umas modelos desfilando do que passar em química.

Mas nesse dia especifico não foi bem assim.

Eu acabei colocando, de modo bem suave (mesmo), minha consternação no Facebook. Recebi um comentário de que, talvez, se a pessoa em questão quisesse ser estilista, tudo bem. Seria como pesquisa de campo.

Concordo. Mas o demente vai nesse São Paulo Fashion Week todo o santo ano. Suficiente de pesquisa de campo (ainda mais de uma área tão descartável quanto moda), foque-se naquilo que você não sabe.

Não pretendo detalhar a cena, mas a questão é que outra demente “curtiu” a resposta ao meu comentário inicial.

Sentiria-me mais tranquilo se eu realmente pudesse chamar essa demente de demente.

No caso, a demente é mais inteligente do que eu. Ou pelo menos tira notas melhores o que, do meu ponto de vista de pré-vestibulando, é indicio de maior inteligência.

E foi justamente aí que comecei a ficar realmente irritado com essa coisa toda.

Acompanhem meu raciocínio e depois pensem mesmo se eu estou errado. Peço paciência e certa licença poética, porque eu realmente aumentei a magnitude de algo que não tinha peso algum.

A demente da qual falo passou na primeira fase da UERJ há pouco. A demente da qual falo mora no tríplex que é a cobertura de um edifício no Itaim (“só” o IPTU mais caro de São Paulo). Compreendemos que a demente, portanto, tem notas boas (reparem minha relutância em dizer que ela, de fato, é mais inteligente do que eu...) e dinheiro de sobra.

Agora, por uma simples associação lógica, podemos prever que ela fará ensino superior em alguma faculdade de renome. Uma faculdade de renome abre metade das portas que uma pessoa precisa para ser grande neste mundo. Dinheiro abre a outra metade.

Pauso esta parte da história aqui. Vamos pra parte do SPFW.

Moda é, por definição, a coisa mais inútil e que dá mais dinheiro na face da terra. Se eu estiver errado, me digam no que diabos um monte de estilistas afetados e modelos bulimicas servem que não pra fundar um padrão tosco de beleza que assedia pessoas de todas as idades, forçando-as a imaginar que elas não são “perfeitas”. Logo, trocando em miúdos, moda serve para criar modelos bulimicas, crianças de 6 anos que não comem por que se acham gordas (isso é verídico) e, por ultimo, e mais importante, do meu ponto de vista, moda serve para girar muito, muito dinheiro. Afinal de contas, a indústria da moda é um grupinho separado da realidade. Um grupinho que acha que pode "ditar" o que é certo de se usar com o que e, principalmente, um grupinho que não serve pra porra nenhuma e resolveu inventar que algumas roupas valem mais do que outras. As mais feias são mais caras, lógico.

É, porque aquela roupa bizarra, que mais parece um rabisco da criança de 6 anos que se acha gorda, aquela roupa que ninguém vai usar, aquela roupa feia pra cacete, essa mesma ai que você deve estar pensando. Essa roupa, só porque foi rabiscada por um estilista afetado da Daslu, vale grana pra caralho.

E é muita grana na mão de pouca gente. Discurso bem comunista, né?

Pois é. As crianças da China escravizadas, as da África nascendo com AIDS, as do Oriente Médio convivendo com guerras no quintal e você, burguesinho filho da puta, assistindo o São Paulo Fashion Week.

Sinceramente, eu não sou contra o Capital nem porra nenhuma dessas. Eu já explicitei minha opinião politica nesse blog. E tampouco me preocupo muito com as desigualdades sociais. A priori, é cada um por si e deus por todos. O problema é que, por causa de muito vagabundo rico pra caralho por ai, EU tenho que viver escondendo as coisas que eu tenho, porque apesar de ter um iPod, eu ando de ônibus pra lá e pra cá, e já fui assaltado. E olha que eu não sou desses mais imbecis que quase colocam um cartaz nas costas que diz "me assalte".

É, eu não sou rico, nem pobre. Eu sou, de verdade, da classe que dá mais medo pra burguesia que a classe pobre: a média.

Porque a classe média é mais inteligente do que o "proletariado", por ter mais acesso à educação. E msmo assim, não tem toda a grana da "burguesia".

Ai você, leitor querido, lembra-se da demente que eu falei antes. Aquela imbecil que vai prestar uma puta faculdade e que tem uma puta grana apoia eventos como o SPFW. E eu não terminei de falar dela...

A fulana é toda metida a suportar causas sociais. A vagabunda é contra a hidrelétrica de Belo Monte, é a primeira a defender a classe pobre, curte Racionais MCs. Mas ainda financia o crime gastando 150 reais em maconha e achando normais eventos que concentram grana e desperdiçam tempo pra ver um bando de palitos andando pra lá e pra cá vestindo meia dúzia de panos esdrúxulos.

Ou seja, em resumo, só porque essa anta teve tudo que quis a vida toda, então, claro, fica fácil apoiar ONGs e o cacete. Mas viver sem a caminha quentinha e o ar condicionado, a vadia não vive. Hipocrisia básica de rico.

Os pais dela não souberam fazer as escolhas certas porque, na verdade, não precisaram fazer muitas. Não precisaram escolher entre um computador caro ou uma escola cara. Não precisaram escolher entre uma viagem cara ou um livro caro. Ela estuda numa escola cara E tem um laptop da Apple, uma casa do caralho e outros benefícios da grana.

Enquanto tem gente que não pode ter tudo e prefere botar o filho numa escola cara ao invés de dar-lhe a porra de um macbook.

Lembra-se do prédio que eu falei que tinha inveja? Pois é, não sou eu que vou ocupa-lo. É algum riquinho recalcado e imbecil, que continua fazendo o mundo girar pro lado errado. Que continua concentrando a grana, que continua mantendo as desigualdades sociais cada vez mais amplas. Ele pode, afinal. Ele tem grana pra gastar em muros altos e cercas elétricas como os do Morumbi. Ele tem grana pra gastar em segurança privada como os moradores do Jardim Paulista. Eu não. E por causa dos erros desse ricaço mimado, eu me fodo. Eu e todo mundo que não tem acesso a esse tipo de segurança, mas que ainda se dá ao direito de certos luxos, de vez em quando.

Não me entendam errado, eu não quero que o capitalismo acabe ou coisa do tipo. Eu só quero poder ter as minhas coisas em paz, sem ter medo de ser assaltado, por exemplo. O que acontece é que, convenientemente ou não, a solução pro meu problema é justamente solucionar o problema de desigualdades. Que, do meu jeitinho, seria mais um linchamento em praça pública de todo mundo com uma renda mensal superior a 70 mil.

Sim, minha indignação começou porque um estúpido matou a aula de química pra ver o São Paulo Fashion Week e porque outra estúpida o apoiou.

Mas eu quero ver quem tem a coragem de me dizer que eu não estou errado por temer pelo meu futuro, quando eu SEI que ele vai ser controlado por uma geração de babacas inconsequentes e mimados? E eu também sei que eu não vou nem chegar perto das decisões importantes, porque eu não nasci com o rabo virado pra lua, porque eu não nasci num tríplex no Itaim. E, pra piorar, eu também não nasci na África. Sorte dos africanos: morrem antes de ter noção do quadro todo.

Eu, por outro lado, tenho que engolir o sapo gigantesco de que a demente lá, além de ser mais inteligente do que eu, tem uma puta grana que eu poderia usar cem vezes melhor. Por culpa de gente como essa vagabunda inconsequente, o resto do povo vira uma máquina, um robô que acorda, trabalha, volta pra casa e dorme, que fica só na expectativa, no sonho de, um dia, quem sabe, ter todo o luxo e as dádivas que esses imbecis esbanjam.

Não, eu não sou nenhum Stalin. Eu, na verdade, acho que Hitler estava mais do que certo. Só errou nos alvos...


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Sit Pro Ratione Voluntas

2 de maio de 2011

Coitadinhos dos viados negros e da garota da capa vermelha

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Cada vez mais eu penso que devia trocar o B por um V e criar um canal no youtube. A preguiça gigantesca que me dá de escrever pra postar no Clockwork Failure é a maior razão de eu não postar com a frequência que eu gostaria. Prova disso é que eu vou tratar de dois temas bem extensos no mesmo post. Isso provavelmente vai deixar o post maior do que eu gostaria, mas, enfim, cabe a vocês decidirem se vão ler ou não.

Vou começar por um tema tolo. Um filme. A Garota da Capa Vermelha.

Ao assistir o filme tive algumas poucas ressalvas. Mas não foram sobre o filme, foi sobre o resto do cinema. Havia alguns pirralhos criados a base de leite com pêra cujos malditos país não lhes ensinaram como se comportar numa sala de cinema. Mas, tudo bem, lá pelas tantas eu mandei esses incompetentes calarem a boca. Orgulho-me de ter uma voz grossa nessas horas.

Acerca do filme eu não tenho ressalva alguma. Eu só gostaria de ter a matriz para destruí-lo.

Completamente.

Exagerei. A releitura que os roteiristas fizeram do conto original da Chapeuzinho Vermelho foi fantástico, sou forçado a admitir. Inserir uma fábula num contexto que, a priori, era puramente ficção, tornou tudo muito mais interessante. E eu senti pontadas de nostalgia nas alusões que o filme faz ao conto. Mas é ai que começa minha raiva.

Eu não sei se devo parabenizar os roteiristas porque não sei se a intenção deles foi mesmo criar um elo tão forte com o conto, para criar esse efeito de relembrar a infância. Até porque, duvido que metade do público infanto-juvenil da sala saiba o que é chapeuzinho vermelho. Não estou exagerando agora. Explicar-lhes-ei.

O filme, pra começar, começa muito rápido. Parece que os diretores precisaram compactar as apresentações dos personagens para que a história inicial coubesse no tempo socialmente aceito por criancinhas que não conseguem assistir filmes com mais de uma hora e meia que não sejam em 3D como Avatar.

Ah, devo avisar. Eu provavelmente vou acabar contando o fim do filme. Então, se você quer ver o filme para julgar decentemente, já fica o aviso. E se você só quiser ver o filme porque seu cérebro é do tamanho de uma ervilha, fica o aviso também.

Voltando.

Num momento apresenta-se a protagonista, enquanto ainda pequena, com uma voz narrando com tom nostálgico (“minha avó costumava me dizer [...]”). Já começa mal. A narração não tem absolutamente nenhuma conexão com o desenrolar dessas tomadas. Fica jogado, só para dar um efeito mais importante, semi-épico. Falhou.

Logo em seguida, somos apresentados ao amor da vida da protagonista. Eles ainda são pequenos, mas, então, a cena muda para 10 anos depois. Repentinamente vemos os dois conversando sobre um casamento arranjado para ela e sobre como eles querem fugir de lá. Aliás, como eles vão fugir de lá. Os dois simplesmente avistam um par de cavalos (convencionalmente amarrados na árvore mais próxima da vista do casal) e decidem roubá-los e fugir.

Mas, de qualquer modo, a tentativa é frustrada por um alarme de ataque do lobo. Mais cenas jogadas a esmo: a irmã da protagonista aparece morta, o amor da vida da mesma é proibido de vê-la quando vai prestar suas condolências. E, pasmem, o vilarejo todo decide caçar e matar o lobo.

Certo? Longe disso. A própria história diz que o lobo não ataca pessoas há mais de 20 anos. Uma morte tão repentina deveria servir apenas para que os moradores se sintam acuados, amedrontados. Nunca haveria um sentimento de revolta tão grande por causa de uma única morte, sendo que eles já conviviam com o problema há muito tempo, fornecendo oferendas para acalmar o apetite do lobo.

Bom, este é, basicamente, o inicio do filme. Mais a diante, diversos erros são disparados aos espectadores como se nós pagássemos para ver algo sem nexo.

Vou só exemplificar lhes, meus irmãozinhos, um erro que fez meu pâncreas doer. Alguns amigos disseram que é picuinha, pode ser, mas, para mim, foi o mais marcante. Não que os outros não sejam igualmente ruins.

Em determinado ponto do filme, os aldeões chamam um padre todo fodão para resolver o problema do lobo. Tal padre é conhecido por ser eficaz nesses processos de expurgo de monstros. Bom, o filme se passa na idade média (conclusão óbvia para quem vê as roupas e os costumes dos coadjuvantes) e o tal “padre” tem filhas. E FICA PIOR.

Vocês concordam que um padre responde à igreja? E concordam que a igreja era geocentrista e acreditava que a terra era plana nessa época, certo?

Pois bem.

O tal padre me aparece com um planetário héliocentrista do sistema solar.

Bobagem minha? Pode até ser. Mas eu gostaria de escrever uma carta (pouco educada) a quem produziu esse filme. Que tipo de público essas pessoas esperavam? Um bando de retardados sem erudição alguma que sejam simplesmente enrolados pelo fato do filme ser uma ficção? Ficção por ficção, Alien, o 8º Passageiro tem naves interplanetárias e é bem coerente.

Sei bem que há três tipos de filmes: os sérios, conhecidos por serem cultzinhos e chatos; os blockbusters hollywoodianos aos quais somos expostos constantemente; e, claro, a junção de ambos.

A Garota da Capa Vermelha não se encaixa, pelo menos para mim, em nenhuma das características. Apressar a história torna o filme cansativo de acompanhar e os erros nos forçam a fazer diversas concessões para aceitar a tal “ficção”.

Mas não sei bem se devo culpar os diretores ou roteiristas. Simplesmente pelo fato de que, ao sair do cinema, ouvi diversos comentários de vozes (infantis ou não) dizendo que adoraram o filme.

Pois bem, vocês adoraram algo porque não souberam parar por cinco minutos e pensar bem sobre o que estavam vendo. A saga Crepúsculo (cinematográfica ou literal) é outro bom exemplo de histórias feitas para gente que não entende do que vê ou lê.

Mas essas porcarias só são produzidas porque, acreditem, há demanda. É o principio capitalista de oferta e procura. Se há procura, haverá, também, alguém que venda. E se há procura de filmes ou livros que sejam tão mal feitos e mal construídos, eu não posso deixar de me preocupar com o futuro mundo em que os filhos dos meus amigos vão viver.

Não me preocupo com o meu porque já decidi minha carreira. Pretendo ser psicólogo e, para mim, essa alienação gerará diversas crises psicológicas. Vou lucrar com a burrice alheia e me divertir ao mesmo tempo. Yes.

Por diversas vezes já fui chamado de “vovô” por um ou outro imbecil que acha meu senso crítico algo digno de alguém de 83 anos de idade, que “não sabe curtir o bom da vida”. Bom, pau no cu do bom da vida. Apresentem-me o quê na vida é bom, além de música e sexo, e eu vou concordar com vocês. Ter experiência de vida (ou simplesmente um senso critico apurado, no meu caso) não é depreciativo. Depreciativo é ver que tem gente que se engana e é burra por vontade própria.

E perdoem meu francês agora pouco. Há um linguista americano, se não me engano, que diz que palavrões não deveriam ser proibidos porque só com eles se transmitem certos pensamentos. Eu, por óbvio, concordo com ele.

Bom, ainda nesse assunto de um apurado senso critico, eu gostaria de me meter em outro daqueles temas polêmicos lindos que eu tanto adoro. Essa merda de criminalização da homofobia.

É. Sou contra esse lixo mesmo. Prendam-me.

Se você não é daqueles que parou de ler nos parágrafos de cima e foi comentar que eu sou um monstro e aquela coisa toda, obrigado por me dar um crédito ou uma chance de me justificar.

Eu só falei aquilo pra causar mesmo. Não é 100% assim que eu penso. É 90%. Eu sou contra a criminalização da homofobia SEGUNDO OS HOMOSSEXUAIS REVOLTADINHOS.

A questão é a seguinte: eu entendo que a homofobia é errada. Eu entendo que ninguém pode ser discriminado por sua opção sexual, caso esta seja saudável. Eu entendo, de verdade, que os gays sofrem grande preconceito porque a nossa sociedade passou por um processo de abandono do machismo muito recente. Eu realmente entendo tudo isso, mas, por favor, não tornem o homossexualismo obrigatório.

Segundo as leis que querem impor, se um funcionário for demitido, pode alegar que foi homofobia. Pior, se ele pleitear um aumento e não for contemplado, também. Eu não sou contra a criminalização da homofobia, sou contra essa criminalização da homofobia.

Eu só gostaria de entender essa contradição ambulante que até alguns homossexuais mesmo repugnam. Pessoas são discriminadas o tempo todo, não só os homossexuais ou os negros ou os asiáticos da Segunda Guerra Mundial ou os muçulmanos nos Estados Unidos. Você e eu somos discriminados.

Eu, por exemplo, pelo meu cabelo comprido, meu tamanho e minha magreza. E se você já andou de ônibus e teve a oportunidade de ver algum gorducho bizarro cheio de tatuagens, pois bem, você estava discriminando-o. Agora, se você olha feio pra um homossexual, agora ele pode te prender por isso.

Justo?

Segundo eles, sim.

Mas na verdade não é. É algo que acontece com todas as tais “minorias oprimidas”: se sentem no direito de exigir, ao mesmo tempo, direitos iguais e direitos superiores. Com os negros também foi assim. É aquela história, andar com uma camisa escrito “100% negro” não é preconceito, mas “100% branco” é. Essa subversão de valores é sempre tão ridícula que me dá vontade de sair metendo a mão em quem quer que essas leis todas sejam aprovadas.

Eu quero que a homofobia seja criminalizada, sim. Mas eu exijo primeiro que isso seja muito bem definido para que não haja segundas interpretações que possam vir a ser prejudiciais para quem não tem nada a ver com isso.

Se eu demito um funcionário gay, é porque ele é incompetente, não gay. Ponto.


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Sit pro ratione voluntas.

16 de abril de 2011

O Drama Ocidental

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Existem algumas posições que eu gosto de defender só por serem polêmicas e eu ter um gosto doentio por discussões. Outras, eu defendo simplesmente por ser o que eu acredito. Vocês devem imaginar a satisfação que eu tenho quando as duas características se juntam no mesmo ponto.

Criticar descaradamente o comportamento das pessoas quando algum evento triste acontece, além de eu ter bons argumentos para fazê-lo, ainda me dá uma faminha de desalmado que eu adoro.

Bom, grande parte de vocês já deve conhecer o nível do Columbine brasileiro, eu imagino, então não vou me dar ao trabalho de descrever o ocorrido. Em resumo, para os que não sabem, neste ultimo dia 7, um ex-aluno de uma escola no Rio de Janeiro entrou e desceu chumbo grosso nos alunos.

Não, eu não vou defender o cara. Mas eu vou meter o pau nos imbecis que ficam fazendo drama sobre esse assunto.

Peço que vocês reparem num comportamento da espécie humana: o drama. Sempre que uma tragédia acontece, parece que as pessoas simplesmente não conseguem se acostumar com a ideia de que, em um momento, tinha um pessoal vivo. No outro, não tem mais.

Eu não me refiro às famílias. Que uma mãe ou pai ou um irmão se sinta profundamente entristecido e deprimido por perder um ente querido eu entendo. Eu mesmo perdi o meu avô, acontece. Mas eu quero entender o comportamento dos outros. Aqueles que não têm nada a ver com a história, que sequer estudam naquela escola, ou moram no mesmo bairro, ou estão na mesma cidade – pra não dizer estado.

Esses imbecis sem nada para fazer que escrevem no Orkut “luto pelas mortes no Rio” ou jogam no Facebook que “rezam pelos mortos no massacre do Rio”. Mas antes de continuar, deixem-me esclarecer o que eu digo, porque minha critica é a um grupo muito particular – ainda que majoritário em quantidade.

Ocorreu um fato atípico de violência. Ponto. A partir daí, a reação das pessoas diverge entre as seguintes alternativas:

Elas podem se sentir profundamente tocadas, abaladas, transtornadas e externar essa indignação das mais variadas maneiras. E só;

Elas podem fazer parte dos que estavam envolvidos e ter reações ainda mais exageradas, dramáticas, como choros, berros, esperneios e etc, o que, como eu disse anterior, é compreensível para alguém que viveu um trauma;

Ela pode se sentir profundamente tocada também e, por ter os meios e a vontade, faz algo;

Ou então a pessoa pode ser daquele tipo que, no fundo, não se sentiu tão abalada assim, mas vê que tem tanta gente chocada que, de algum modo, sente uma urge visceral de fingir que sente tanto quanto os outros. E é a este tipo que eu me refiro.

Vocês podem até pensar “mas, Henrique, que tipo de pessoa é essa?”. Bom, sinceramente, você pode conviver com um monte de gente assim e nem perceber muito. Lembram-se do caso Eloá? Aquele circo todo com a policia, o namorado, a amiga que saiu e voltou, bla bla bla? Naquela época eu acabei por descobrir um perfil de Orkut – falso – que havia sido feito com o nome das duas meninas mortas.

O perfil tinha mais scraps que o Johnny Depp tem fãs.

Eu gostaria de entender que tipo de deficiência mental levou essas pessoas a imaginar que as duas mortas teriam acesso ao Virtua lá do paraíso. Aliás, será que tem alguma promoção no céu pra isso? Sei lá, um net combo da vida, pra elas poderem falar à vontade de net pra net...

Ok, mas aí o leitor entediado resolve me mandar a merda e sobe a página pra ver como eu me chamo. E repara no titulo do post. E fica mais indignado. “Como assim, ocidental, seu filho da puta?”. Eu respondo.

Olhem.

Para.

Os.

Japoneses.

As casas caíram, eles não tem comida, estão sofrendo terremotos pesados quase que diariamente, de cinco em cinco dias explode outro gerador, milhares de mortos – pais, filhos, irmãos, cachorros.

E nenhum saque. Nenhum caos. Nada.

Eu disse “ocidental”, porque o oriente, mais especificamente o Japão, passou por uma situação bem mais avassaladora que um retardado entrando numa escola com uma arma. E eles mantiveram a compostura.

“Ah, mas os pais e mães choraram ao ver os filhos mortos”

Não. Digo, sim, choraram, mas não armaram um barraco, não fizeram escândalo. Engoliram o choro, mantiveram a sobriedade e mais tarde, provavelmente no conforto e solidão de suas casas, soltaram o que estava preso.

Enfim, cansei de escrever esse post. O fim ficou ruim, mas, fazer o quê.

27 de março de 2011

Rotina

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Uma música do Nine Inch Nails começa com os seguintes versos:

“I believe I can see the future

Cause I repeat the same routine”

De primeira não há grandes motivos para prestar atenção nessa parte da música. Até porque são os dois primeiros versos e os seguintes se engatilham rápido suficiente para dar continuidade ao compasso.

No entanto, insisto, reparem bem nessas frases. Reparem bem como esse conjunto de palavras escolhidas não por acaso formam algo tão degradante e pútrido que chega a ser poético. A que ponto deve chegar a vida de uma pessoa para que ela se sinta hábil de prever o próprio futuro? Pior ainda, a que ponto a insanidade dessa pessoa chegou, que ela mesma se conformou com esse fato?

Rotinas. Elas existem por uma razão: organizar. Assim como uniformes, crachás, salas e outros, as rotinas poupam uma pessoa de pensar acerca de seus dias. E, assim como uniformes, crachás e salas, elas castram uma pessoa.

Uniformes te poupam de pensar o que você vai vestir no dia seguinte.

Crachás te poupam de pensar sobre quem você é ao dizer seu nome, porque você sequer o diz.

Salas te poupam de pensar para onde você vai e o que você vai fazer quando chegar lá.

Rotinas simplesmente te poupam de existir.

Quando acordar, porque acordar, como acordar. Como levantar, onde levantar. Para onde ir, o que fazer, como fazer, quando fazer. Como responder e quando. Como agir, como pensar, como reagir, como esquecer, como ser, como não ser, como estar, como não estar. Enfim, a lista é enorme e chega a ser tão degradante que, em alguns casos, eu poderia escrever “como, quando, onde e porque fazer sexo”.

Enfim, eu apenas falei dos malefícios das rotinas. Não que haja benefícios, claro. Mas imagine uma rotina que te diga quem, quando e como odiar.

Viver ao lado de uma pessoa que te joga contra a parede constantemente. Imagine isso. Você é, deliberadamente, o culpado por qualquer coisa que aconteça a essa pessoa. E pior: deve se manter calado. Você sente ódio, repulsa. Até nojo. Mas tem que engolir tudo e fazer de conta que nada aconteceu. Fazer disso sua rotina.

Quão degradante é para uma pessoa poder prever o horário do dia em que se irritará, por quanto tempo ficará irritado e em que intensidade sua raiva irá se manifestar?

E que não seja por uma pessoa, que seja por uma série de pessoas. Ou uma série de fatos. Diversos eventos competindo pela sua atenção, um pior que o outro e todos eles devem ser atendidos ao mesmo tempo – embora não possam.

Quão degradante é para uma pessoa acordar, sentir uma brisa de paz entrando pela janela – para fechar o sonho – e ouvir uma buzina de carro ao fundo – para despertar a realidade – e dizer “hoje vai ser um dia de merda”. E saber que isso foi dito todos os dias anteriores a esse. E que vai ser dito em todos os próximos dias.

Qualquer rotina é pior que antraz, mas as rotinas que ditam até quando você vai se rebelar contra elas são as mais cruéis.

E essas repetições se dão em todos os cantos do mundo em todas as épocas da história.

Os ricos sempre discutem negócios, os pobres sempre discutem a loteria. Os românticos sempre se apaixonam por quem não existe, os alienados nunca se apaixonam. Os pseudo-intelectuais sempre citam Cazuza ou Chico Buarque, os burros sempre sabem os nomes dos jogadores dos times. Os baladeiros sempre voltam tarde, os estudiosos sempre estudam até tarde. Os guerreiros sempre lutam, os generais sempre mandam. Os padres sempre rezam, os ateus sempre desprezam os padres.

Tudo isso pra quê, se o dia de hoje vai ser uma merda tão grande quanto o anterior?

E, puta que pariu, nem me fale de amanhã.

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