Da janela do meu quarto eu tenho uma vista muito interessante. Moro num bairro com diversos planaltos, então, mesmo morando em casa, por ficar na parte de cima de um dos morros, eu consigo ver precisamente um vale de casas antigas convivendo com uma meia dúzia de edifícios relativamente novos. De cá, consigo ver um deles que tem uns 20 e tantos andares. Fico imaginando a vista que deve ter no topo.
Invejinha de quem mora lá.
Foi nesse processo quase metafisico de dissecar minha inveja que eu pensei no São Paulo Fashion Week. Mas eu sinto que não estou contando a história toda a vocês, meus irmãozinhos.
Aconteceu assim...
Era uma sexta-feira e, nesse dia, minhas duas ultimas aulas no colégio são de química. E a matéria do terceiro colegial de química pode até ser tranquila, mas tem muita gente se ferrando na minha sala. Até ai, normal.
A parte bizarra começa quando percebo um individuo guardando o caderno na mala e se aprontando pra sair. Primeiramente eu pensei que ele fosse sair mais cedo pra prestar algum vestibular de inverno.
Engano meu. Ele foi pro titulo deste post. E ele não é exatamente o que podemos chamar de gênio escolar.
Foi o suficiente para que minha cabeça começasse a pensar tanto nisso que eu me irritei numa proporção meio fora do que deveria. Eu costumo fazer isso.
Nesses casos (recorrentes) minha namorada querida me faz esquecer a falta de lógica de certos eventos e me desvia o pensamento do fato de que eu simplesmente não posso fazer nada se um babaca prefere ver umas modelos desfilando do que passar em química.
Mas nesse dia especifico não foi bem assim.
Eu acabei colocando, de modo bem suave (mesmo), minha consternação no Facebook. Recebi um comentário de que, talvez, se a pessoa em questão quisesse ser estilista, tudo bem. Seria como pesquisa de campo.
Concordo. Mas o demente vai nesse São Paulo Fashion Week todo o santo ano. Suficiente de pesquisa de campo (ainda mais de uma área tão descartável quanto moda), foque-se naquilo que você não sabe.
Não pretendo detalhar a cena, mas a questão é que outra demente “curtiu” a resposta ao meu comentário inicial.
Sentiria-me mais tranquilo se eu realmente pudesse chamar essa demente de demente.
No caso, a demente é mais inteligente do que eu. Ou pelo menos tira notas melhores o que, do meu ponto de vista de pré-vestibulando, é indicio de maior inteligência.
E foi justamente aí que comecei a ficar realmente irritado com essa coisa toda.
Acompanhem meu raciocínio e depois pensem mesmo se eu estou errado. Peço paciência e certa licença poética, porque eu realmente aumentei a magnitude de algo que não tinha peso algum.
A demente da qual falo passou na primeira fase da UERJ há pouco. A demente da qual falo mora no tríplex que é a cobertura de um edifício no Itaim (“só” o IPTU mais caro de São Paulo). Compreendemos que a demente, portanto, tem notas boas (reparem minha relutância em dizer que ela, de fato, é mais inteligente do que eu...) e dinheiro de sobra.
Agora, por uma simples associação lógica, podemos prever que ela fará ensino superior em alguma faculdade de renome. Uma faculdade de renome abre metade das portas que uma pessoa precisa para ser grande neste mundo. Dinheiro abre a outra metade.
Pauso esta parte da história aqui. Vamos pra parte do SPFW.
Moda é, por definição, a coisa mais inútil e que dá mais dinheiro na face da terra. Se eu estiver errado, me digam no que diabos um monte de estilistas afetados e modelos bulimicas servem que não pra fundar um padrão tosco de beleza que assedia pessoas de todas as idades, forçando-as a imaginar que elas não são “perfeitas”. Logo, trocando em miúdos, moda serve para criar modelos bulimicas, crianças de 6 anos que não comem por que se acham gordas (isso é verídico) e, por ultimo, e mais importante, do meu ponto de vista, moda serve para girar muito, muito dinheiro. Afinal de contas, a indústria da moda é um grupinho separado da realidade. Um grupinho que acha que pode "ditar" o que é certo de se usar com o que e, principalmente, um grupinho que não serve pra porra nenhuma e resolveu inventar que algumas roupas valem mais do que outras. As mais feias são mais caras, lógico.
É, porque aquela roupa bizarra, que mais parece um rabisco da criança de 6 anos que se acha gorda, aquela roupa que ninguém vai usar, aquela roupa feia pra cacete, essa mesma ai que você deve estar pensando. Essa roupa, só porque foi rabiscada por um estilista afetado da Daslu, vale grana pra caralho.
E é muita grana na mão de pouca gente. Discurso bem comunista, né?
Pois é. As crianças da China escravizadas, as da África nascendo com AIDS, as do Oriente Médio convivendo com guerras no quintal e você, burguesinho filho da puta, assistindo o São Paulo Fashion Week.
Sinceramente, eu não sou contra o Capital nem porra nenhuma dessas. Eu já explicitei minha opinião politica nesse blog. E tampouco me preocupo muito com as desigualdades sociais. A priori, é cada um por si e deus por todos. O problema é que, por causa de muito vagabundo rico pra caralho por ai, EU tenho que viver escondendo as coisas que eu tenho, porque apesar de ter um iPod, eu ando de ônibus pra lá e pra cá, e já fui assaltado. E olha que eu não sou desses mais imbecis que quase colocam um cartaz nas costas que diz "me assalte".
É, eu não sou rico, nem pobre. Eu sou, de verdade, da classe que dá mais medo pra burguesia que a classe pobre: a média.
Porque a classe média é mais inteligente do que o "proletariado", por ter mais acesso à educação. E msmo assim, não tem toda a grana da "burguesia".
Ai você, leitor querido, lembra-se da demente que eu falei antes. Aquela imbecil que vai prestar uma puta faculdade e que tem uma puta grana apoia eventos como o SPFW. E eu não terminei de falar dela...
A fulana é toda metida a suportar causas sociais. A vagabunda é contra a hidrelétrica de Belo Monte, é a primeira a defender a classe pobre, curte Racionais MCs. Mas ainda financia o crime gastando 150 reais em maconha e achando normais eventos que concentram grana e desperdiçam tempo pra ver um bando de palitos andando pra lá e pra cá vestindo meia dúzia de panos esdrúxulos.
Ou seja, em resumo, só porque essa anta teve tudo que quis a vida toda, então, claro, fica fácil apoiar ONGs e o cacete. Mas viver sem a caminha quentinha e o ar condicionado, a vadia não vive. Hipocrisia básica de rico.
Os pais dela não souberam fazer as escolhas certas porque, na verdade, não precisaram fazer muitas. Não precisaram escolher entre um computador caro ou uma escola cara. Não precisaram escolher entre uma viagem cara ou um livro caro. Ela estuda numa escola cara E tem um laptop da Apple, uma casa do caralho e outros benefícios da grana.
Enquanto tem gente que não pode ter tudo e prefere botar o filho numa escola cara ao invés de dar-lhe a porra de um macbook.
Lembra-se do prédio que eu falei que tinha inveja? Pois é, não sou eu que vou ocupa-lo. É algum riquinho recalcado e imbecil, que continua fazendo o mundo girar pro lado errado. Que continua concentrando a grana, que continua mantendo as desigualdades sociais cada vez mais amplas. Ele pode, afinal. Ele tem grana pra gastar em muros altos e cercas elétricas como os do Morumbi. Ele tem grana pra gastar em segurança privada como os moradores do Jardim Paulista. Eu não. E por causa dos erros desse ricaço mimado, eu me fodo. Eu e todo mundo que não tem acesso a esse tipo de segurança, mas que ainda se dá ao direito de certos luxos, de vez em quando.
Não me entendam errado, eu não quero que o capitalismo acabe ou coisa do tipo. Eu só quero poder ter as minhas coisas em paz, sem ter medo de ser assaltado, por exemplo. O que acontece é que, convenientemente ou não, a solução pro meu problema é justamente solucionar o problema de desigualdades. Que, do meu jeitinho, seria mais um linchamento em praça pública de todo mundo com uma renda mensal superior a 70 mil.
Sim, minha indignação começou porque um estúpido matou a aula de química pra ver o São Paulo Fashion Week e porque outra estúpida o apoiou.
Mas eu quero ver quem tem a coragem de me dizer que eu não estou errado por temer pelo meu futuro, quando eu SEI que ele vai ser controlado por uma geração de babacas inconsequentes e mimados? E eu também sei que eu não vou nem chegar perto das decisões importantes, porque eu não nasci com o rabo virado pra lua, porque eu não nasci num tríplex no Itaim. E, pra piorar, eu também não nasci na África. Sorte dos africanos: morrem antes de ter noção do quadro todo.
Eu, por outro lado, tenho que engolir o sapo gigantesco de que a demente lá, além de ser mais inteligente do que eu, tem uma puta grana que eu poderia usar cem vezes melhor. Por culpa de gente como essa vagabunda inconsequente, o resto do povo vira uma máquina, um robô que acorda, trabalha, volta pra casa e dorme, que fica só na expectativa, no sonho de, um dia, quem sabe, ter todo o luxo e as dádivas que esses imbecis esbanjam.
Não, eu não sou nenhum Stalin. Eu, na verdade, acho que Hitler estava mais do que certo. Só errou nos alvos...
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Sit Pro Ratione Voluntas